Marcos trabalha como porteiro num prédio de luxo no Rio Vermelho. Todo dia ele abre a porta para estrangeiros --- americanos, europeus, pessoas que chegam com malas grandes e perguntas maiores ainda. Eles perguntam sobre restaurantes, sobre passeios, sobre onde cortar o cabelo. Marcos sempre sabe a resposta. Ele indica, sorri, e volta pra sua cadeira.
Cláudia, a esposa de Marcos, tem um salão num bairro nobre. As clientes dela são brasileiras bem-sucedidas --- mulheres que pagam bem, mas que já têm cabeleireira há dez anos. Novos clientes aparecem pouco. Ela trabalha muito. Ganha bem, mas poderia ganhar mais.
O tio dos dois, Seu Gilberto, tomava conta de uma pousada no interior por mais de trinta anos. Conhecia cada trilha, cada planta, cada produtor da região. Quando a pousada fechou, ele ficou sem trabalho --- mas continuou sendo a enciclopédia viva daquele lugar.
Os três se reúnem no domingo. Comem, conversam. Marcos fala que um hóspede americano perguntou sobre passeios fora de Salvador. Cláudia fala que uma cliente perguntou se ela conhecia alguém que fazia tranças para estrangeiras. Seu Gilberto fala que um cara de São Paulo ligou perguntando sobre hospedagem rústica com natureza.
Cada um respondeu: "não sei não."
E mudaram de assunto.